Banco Central, juros e a teoria da conspiração
Na edição deste mês da Conjuntura Econômica, da Fundação Getúlio Vargas, dois breves textos deveriam ser lidos por todos os brasileiros, não importando classe social, nível educacional ou afinidade política e ideológica. O professor A. C. Porto Gonçalves escreve sobre o papel do Banco Central na decisão de aumentar ou reduzir a taxa Selic, e mostra que a autoridade monetária não é a responsável pelo alto nível da taxa de juros no Brasil. Com clareza e muita didática, o professor Gonçalves explica que para controlar a inflação e estabilizar o crescimento do PIB em torno de seu potencial, o Banco Central não “produz juros elevados, mas, ao cumprir sua meta básica de estabilização, a taxa que resulta é muito alta”. Em outras palavras, o que temos é o que se chama de taxa de juros natural, que é um conceito pouco entendido por aqueles que não estudam economia e que diz respeito à taxa de juros real que iguala o produto de fato ao seu potencial. Com isso em mente, em vez de criticar o BC, os descontentes deveriam procurar as raízes do problema, ou seja, o porquê de as taxa de juros real ser tão alto no Brasil.
Na matéria que vem logo após a citada acima, o professor da EPGE, Fernando de Holanda Barbosa, toca em assunto similar, mostrando como é fácil para qualquer um apontar culpados pelo desempenho recente da economia brasileira sem ter que assumir responsabilidade alguma. Para ele, e eu compartilho desta opinião, a culpa do vexame econômico das últimas duas décadas e meia não é do FMI nem de qualquer outra instituição, seja ela doméstica ou externa, mas sim dos presidentes e suas equipes econômicas que foram incapazes de “diagnosticar e remover as causas que impedem o aumento da taxa de crescimento da economia brasileiras”. Ainda fazendo uso de suas palavras, “[a] raiz do problema é a crise fiscal do estado que usa poupança privada para financiar gastos correntes. A miopia de curto prazo, dos governantes do dia, ao satisfazer as pressões de grupos organizados, impede que o país cresça. O Banco Central não tem nada a ver com isso”.



3 Comments:
Philipe,
Obrigado pelo post, fico feliz em saber que tenho um pouco mais do que quatro leitores no meu blog (parece que um deles estava passando mal depois dos ultimos posts, entao corre-se o risco de serem apenas tres!!!).
Um abraco,
Angelo
Parabéns pelo seu blog!
A taxa de juro real no Brasil anda à volta dos 10%, certo? Isso deveria estimular a poupança (que é altamente lucrativa), e trazer para níveis mais moderados a taxa de juro "natural". Imagino que essas taxas de juro devem refrear o consumo de bens duradouros da população, e também devem ser muito penalizadoras para os empresários sem acesso ao mercado de capitais estrangeiro.
O crescimento pífio das últimas duas déadas deve ser atribuído a dois fatores que isentam completamente a culpa do Bacen:
* O PSI realizado em boa parte do século passado, deixando para nós um parque industrial relativamente grande mas ceifado de ineficiência sem nenhum dinamismo;
* E as malabarias realizadas com a política econômica principalmente na década de oitenta.
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