A esmola é demais, os mercados são eficientes, o almoço não é de graça e o Santo desconfia.
Esse texto faz parte (pelo menos espero que faça) do projeto "Quem gosta de homem é gay, mulher gosta é de dinheiro: Usando Teoria Econômica para explicar Ditados Populares" proposto pelo professor Sachsida em seu blog. Críticas e sugestões são sempre bem-vindas.
“Quando a esmola é demais o santo desconfia”. Quase todo mundo conhece esse ditado. Nós usamos esta expressão em duas ocasiões: A primeira é quando surge uma oportunidade muito fácil para ganhar dinheiro. Golpistas sempre tentam seduzir a sua vítima com uma história que envolve lucro rápido. Seja o vendedor da “máquina que faz dinheiro”, sejam “empresários” que procuram investidores para aplicar seu dinheiro em empreendimentos com “lucro alto e “garantido”, ou qualquer outro golpe desse tipo, o truque é sempre o mesmo. Ele consiste em atrair as pessoas usando o dinheiro fácil como chamariz. A segunda ocasião onde usamos essa expressão é um pouco diferente. Eu estou falando dos “brindes”, das promoções que você “ganhou” e da qual não sabia que estava participando, do dinheiro e do bilhete premiado achado “por acaso” no meio da rua. Apesar de parecidas, essas duas ocasiões são diferentes. A primeira ocasião exige algum tipo de investimento da parte da vítima. A segunda, a princípio, não exige.
Essa expressão, que foi criada para retratar os dois tipos de acontecimentos acima mencionados, está fundada em dois principios econômicos. Cada principio se aplica em instensidade diferente para cada situação, ainda que eles só façam sentido se combinados. O primeiro princípio pode ser formulado através da famosa expressão: “Não existe esse negócio de almoço de graça”. Essa frase, cunhada por Milton Friedman, é uma das maiores verdades econômicas. Toda ação humana envolve algum tipo de custo. Seja o tempo que você perdeu ao realizar uma atividade em lugar de outra, o dinheiro que você gastou comprando alguma coisa no shopping, ou custo de produção do padeiro ao fabricar pães. Tudo no nosso mundo custa. A questão é saber quem é que vai pagar este custo.
Este princípio se aplica perfeitamente ao caso dos “brindes”. Sempre quando alguém nos oferece algo “de graça” é natural nós desconfiarmos desse alguém. Isso acontece porque, intuitivamente, nós pensamos na frase de Milton Friedman. Como assim, “não custa nada?”, nós nos perguntamos. É óbvio que custa alguma coisa, a questão é quem está pagando. Se a pessoa está oferecendo algo de graça, é porque algum benefício ela tem. De alguma forma ela irá compensar a perda de “ofercer-nos o brinde”. Muitas vezes é apenas uma jogada de marketing para conquistar clientes. Entretanto, algumas vezes existem pessoas que usam esse chamariz com más intenções. Fazem isso para nos ludibriar. Por isso que é quase natural sentirmos certa desconfiança quando nos oferecem algo “de graça”.
O segundo princípio econômico por trás desse ditado é um pouco mais complexo. Os economistas resolveram chamar este princípido de “Hipótese dos Mercados Eficientes” (HME). O nome, a primeira vista, pode assustar alguns, mas a idéia não nada complicada. A grosso modo, ela quer dizer que as melhores oportunidades de lucro na economia já foram exploradas por alguém. É impossível conseguir ganhar um lucro acima do normal usando informações que estão disponíveis. Os mercados são eficientes. A única maneira de obter um lucro extraordinário é descobrindo algo novo, alguma informação nova que é desconhecido do público em geral. Tal situação é extremamente dificil de acontecer. A performance de uma pessoa não pode ser sistematicamente melhor do que o mercado em geral. As melhores e mais óbvias oportunidades de lucro são sempre ocupadas primeiro, por isso, não é algo simples superar o mercado.
Para ilustrar esse princípio, é sempre bom lembrar da piada que sempre é contada quando se explica a HME:
Dois amigos caminham em uma rua deserta. Um deles é um economista. Seu amigo olha para o chão e grita para o economista: “Olha só! Uma nota de 100 reais no chão!”. Quando o amigo começa a correr em direção a nota, o economista diz: “Não diga bobagens! Se realmente existesse uma nota de 100 reais ali, alguém já teria achado!”.
Conseguiram entender? A Hipótese dos Mercados Eficientes diz que as informações e preços estão disponíveis para o público e, portanto, é muito dificil conseguir um lucro acima do normal. Para isso é necessário algo mais.
Isso tem tudo a ver com o nosso ditado. Quando ouvimos falar de uma oportunidade de lucro “rápido e fácil”, a nossa tendência é de desconfiar. “Se é tão fácil assim, porque não existem mais pessoas fazendo?”, nós nos perguntamos. É difícil aceitarmos a idéia de que exista uma oportunidade de lucro fácil que ainda não foi aproveitada. Quando pensamos nisso, no fundo, nós estamos pensando a Hipótese dos Mercados Eficientes. As oportunidades de lucro fácil já deveriam ter sido aproveitadas por outras pessoas. Na grande maioria das vezes, essas oportunidades acabam não sendo tão “fáceis” quanto nos informaram que seria. Algumas vezes essas oportunidades se revelam um golpe, ou simplesmente acabam dando muito errado. Raras são as vezes em que esses negócios são realmente uma oportunidade ainda inexplorada e realmente se tornam lucrativos.
Esses dois princípios combinados estão por trás desse ditado. Na realidade, juntos eles não representam nada mais do que algo que o senso comum sempre soube: Nada “cai do céu”. Portanto, quando a esmola é demais, desconfie.
Marcadores: "almoço grátis", hipótese dos mercados eficientes, Microeconomia, Milton Friedman



3 Comments:
muito interessante essa iniciativa de explicar os ditados populares, do ponto de vista economico.
recordei me, lendo seu post que certa vez no campus, uma tenda do banco real estava montada perto da sala onde estudo. e os agentes estavam "vendendo seu peixe pros universitarios". descreviam uma infinidades de vantagens que o cliente do banco tem. ao se aproximar de mim e um amigo, uma menina ja veio me perguntando: vamos fazer o cartao do banco real?
ai respodemos quase que ensaiados: "naum temos dinheiro" ai ela rapidamente respondeu: "naum precisa de dinheiro" e eu retruquei "moça, somos estudantes de economia, e ainda naum aprendemos se existe banco que naum precisa de dinheiro"
coitada, naum sei se isso tem muito a ver, mas queria demonstrar como sempre tem uma malicia por tras das inumeras vantagens que pessoas te oferecem...
Stein, sempre existem oportunidades de lucro extraordinário por aí. Mas, definitivamente, não são as que ~estão anunciadas publicamente. O que realmente não existe é alta lucratividade garantida. O trade off entre risco e retono, esse sim é indefectível. Mesmo quando pensamos nas falcatruas de Brasília isso existe. O empresário que frauda uma licitação tem certeza de lucro alto, mas corre o risco de ser preso. Esse é outro tema interessante de pesquisar.
corre o risco de ser pego, porém de nada acontecer, ou seja, não há risco
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