A Miséria do Multiplicador Keynesiano: A Lei de Say corretamente entendida.
O método é o que distingue uma teoria científica de uma teoria não-científica. Uma teoria se torna um “mito” quando nós esquecemos as fundamentações lógicas e racionais que se encontram por trás da teoria científica. Quando esquecemos os pressupostos, intuições e derivações lógicas da teoria, ela se torna algo “mítico”. Por mito queremos dizer algo que é aceito por fazer parte de uma narrativa tradicional, algo que é “sagrado”. Ao contrário do que muitos heterodoxos afirmam, todas as teorias tem pressupostos simplificadores e arbitrários. Essa é sina de todo o conhecimento humano. A própria palavra “teoria” siginifica especulação. É a conexão entre a causa e o efeito.
Um exemplo de uma teoria que se tornou um mito foi a idéia do “Multiplicador Keynesiano”. O leitor deste blog provavelmente já conhece essa teoria. O “gasto”, seja de consumo ou investimento, geraria um “efeito dominó” por toda a economia que teria um impacto maior sobre a renda do que o volume de gasto incial. Por trás disso, existe a idéia de que o gasto de uma pessoa é a renda de outra. Se um indivíduo tem 100 reais e gasta 80 na padaria, poupando os 20 reais restantes, o padeiro, passaria a ter 80 reais, que dos quais pouparia 16 reais e gastaria 64 no açougue, por exemplo. O açogueiro, por sua vez, poupa 12,8 e gasta 51,2 no alfaiate e assim sucessivamente. Diz-se que nessa situação o multiplicador é 5, ou seja, um gasto inicial de 100 causará um aumento na renda de 500 reais.
Essa idéia sempre me incomodou. Como que simplesmente gastar irá fazer a sua renda aumentar? Se pensarmos no nível do indivíduo, esse argumento parece uma tolice sem tamanho. Se eu quero aumentar meu poder aquisitivo (aumentar minha renda), eu tenho três opções: a primeira é arranjar um emprego que pague mais, ou seja, eu preciso realizar uma atividade na qual eu tenho um desempenho melhor. Uma atividade onde sou mais produtivo. A segunda opção seria a de poupar parte da minha renda e emprestá-la para alguém. Eu não preciso emprestar diretamente, pois posso fazê-lo através de um banco. Fazendo isso, no futuro, eu possuirei um poder aquisitivo maior. A terceira alternativa para aumentar meu poder aquisitivo é me endividar. Se eu quero consumir agora, eu posso pedir emprestado o dinheiro de alguém que está poupando. Essas são as únicas maneiras de aumentar minha renda. Nenhuma delas envolve “gasto”.
Note que essas três alternativas têm algo em comum. Para poder aumentar minha renda, eu preciso aumentar minha produção. Na primeira alternativa, eu aumento minha produção ao arranjar um emprego que me permita produzir mais, que me permita ganhar mais dinheiro. Na segunda opção, eu faço uma poupança, recebendo juros que irão aumentar minha riqueza futura e, conseqüentemente, meu consumo futuro. Na última opção, eu me endivido e, portanto, posso consumir mais no presente, mas terei que aumentar minha produção no futuro para poder pagar o empréstimo. O consumo só é possível se os invíduos ofertarem algo em troca. Para demandar algo eu preciso ofertar alguma coisa. É esse o principio da Lei de Say. Sem produção, não existe demanda. A produção me permite demandar.
Keynes, ao explicar o multiplicador, afirma que o consumo de uma pessoa é a renda de outra pessoa e assim sucessivamente. O que ele esquece de dizer é que o consumo de um indivíduo só é possível se ele produzir algo de útil. Só pode demandar se ofertar. O consumo por si só não “aumenta renda”. O que aumenta a renda é a poupança. Poupança permite o investimento em capital físico, capital humano e tecnologia. Tais investimentos aumentam a produtividade da economia e, consqüentemente, o poder aquisitivo do país.
Quando se aumenta o consumo, a poupança é reduzida e, portanto, a capacidade da economia de crescer é reduzida. Os empresários possuem menos fundos a sua disposição. O aumento do consumo pressupõe que exista uma produção que permita esse aumento. Esses produtos extras virão da poupança. Ou seja, se o consumo aumentar agora, a economia terá uma menor capacidade de crescimento. Há um “trade-off” muito claro.
Se isso é verdade, então como que o Multiplicador pode funcionar? Ele funciona, pois para Keynes não existem custos em aumentar o consumo. Isso ocorre porque ele considera que a poupança é um “vazamento”. Ela é algo ruim que não serve pra nada. Para ele, todo o dinheiro poupado será “enterrado” e não será revertido em investimento. O indivíduo, e a economia como um todo, não passaria pelo dilema da escolha intertemporal, qual seja, a escolha de consumir agora ou consumir mais no futuro. Poupar, na visão de Keynes, seria burrice. Não serviria para nada.
É por isso que aprendemos em Macroeconomia I que o multiplicador dos gastos do governo é maior do que o dos tributos. Isso ocorre porque o governo, ao tributar, retira parte da renda destinada ao consumo e outra parte destinada a poupança. A parte destinada ao consumo causa um efeito negativo sobre a renda. Entretanto, a parte retirada da poupança mais que compensa a perda do consumo. Isso só ocorre porque Keynes considera a poupança algo inútil. Se considerarmos que ela seria destinada a investimentos por parte do setor privado, então a renda da economia seria prejudicada. Os investimentos do setor privado seriam reduzidos.
- Portanto, o mito do multiplicador keynesiano é falacioso, pois não leva em consideração de que, para haver consumo, é necessário haver produção compatível. Não é o consumo que aumenta produção. É a maior produção que aumenta a capacidade de consumir.
- Portanto, caro leitor, sempre que alguém vier com essa “histórinha do multiplicador”, pergunte para si mesmo: “Como esse consumo foi pago? Da onde o consumidor conseguiu obter produção para poder realizar a troca?”.
* Lembre-se: O consumo de uma pessoa só é possível se ela tiver produzido ou pegado emprestado algo de alguém. Toda a demanda pressupõe a oferta de algum bem. Todo e qualquer consumo deve ser finaciado com alguma produção. Quanto maior a produção, maior o consumo.
Um exemplo de uma teoria que se tornou um mito foi a idéia do “Multiplicador Keynesiano”. O leitor deste blog provavelmente já conhece essa teoria. O “gasto”, seja de consumo ou investimento, geraria um “efeito dominó” por toda a economia que teria um impacto maior sobre a renda do que o volume de gasto incial. Por trás disso, existe a idéia de que o gasto de uma pessoa é a renda de outra. Se um indivíduo tem 100 reais e gasta 80 na padaria, poupando os 20 reais restantes, o padeiro, passaria a ter 80 reais, que dos quais pouparia 16 reais e gastaria 64 no açougue, por exemplo. O açogueiro, por sua vez, poupa 12,8 e gasta 51,2 no alfaiate e assim sucessivamente. Diz-se que nessa situação o multiplicador é 5, ou seja, um gasto inicial de 100 causará um aumento na renda de 500 reais.
Essa idéia sempre me incomodou. Como que simplesmente gastar irá fazer a sua renda aumentar? Se pensarmos no nível do indivíduo, esse argumento parece uma tolice sem tamanho. Se eu quero aumentar meu poder aquisitivo (aumentar minha renda), eu tenho três opções: a primeira é arranjar um emprego que pague mais, ou seja, eu preciso realizar uma atividade na qual eu tenho um desempenho melhor. Uma atividade onde sou mais produtivo. A segunda opção seria a de poupar parte da minha renda e emprestá-la para alguém. Eu não preciso emprestar diretamente, pois posso fazê-lo através de um banco. Fazendo isso, no futuro, eu possuirei um poder aquisitivo maior. A terceira alternativa para aumentar meu poder aquisitivo é me endividar. Se eu quero consumir agora, eu posso pedir emprestado o dinheiro de alguém que está poupando. Essas são as únicas maneiras de aumentar minha renda. Nenhuma delas envolve “gasto”.
Note que essas três alternativas têm algo em comum. Para poder aumentar minha renda, eu preciso aumentar minha produção. Na primeira alternativa, eu aumento minha produção ao arranjar um emprego que me permita produzir mais, que me permita ganhar mais dinheiro. Na segunda opção, eu faço uma poupança, recebendo juros que irão aumentar minha riqueza futura e, conseqüentemente, meu consumo futuro. Na última opção, eu me endivido e, portanto, posso consumir mais no presente, mas terei que aumentar minha produção no futuro para poder pagar o empréstimo. O consumo só é possível se os invíduos ofertarem algo em troca. Para demandar algo eu preciso ofertar alguma coisa. É esse o principio da Lei de Say. Sem produção, não existe demanda. A produção me permite demandar.
Keynes, ao explicar o multiplicador, afirma que o consumo de uma pessoa é a renda de outra pessoa e assim sucessivamente. O que ele esquece de dizer é que o consumo de um indivíduo só é possível se ele produzir algo de útil. Só pode demandar se ofertar. O consumo por si só não “aumenta renda”. O que aumenta a renda é a poupança. Poupança permite o investimento em capital físico, capital humano e tecnologia. Tais investimentos aumentam a produtividade da economia e, consqüentemente, o poder aquisitivo do país.
Quando se aumenta o consumo, a poupança é reduzida e, portanto, a capacidade da economia de crescer é reduzida. Os empresários possuem menos fundos a sua disposição. O aumento do consumo pressupõe que exista uma produção que permita esse aumento. Esses produtos extras virão da poupança. Ou seja, se o consumo aumentar agora, a economia terá uma menor capacidade de crescimento. Há um “trade-off” muito claro.
Se isso é verdade, então como que o Multiplicador pode funcionar? Ele funciona, pois para Keynes não existem custos em aumentar o consumo. Isso ocorre porque ele considera que a poupança é um “vazamento”. Ela é algo ruim que não serve pra nada. Para ele, todo o dinheiro poupado será “enterrado” e não será revertido em investimento. O indivíduo, e a economia como um todo, não passaria pelo dilema da escolha intertemporal, qual seja, a escolha de consumir agora ou consumir mais no futuro. Poupar, na visão de Keynes, seria burrice. Não serviria para nada.
É por isso que aprendemos em Macroeconomia I que o multiplicador dos gastos do governo é maior do que o dos tributos. Isso ocorre porque o governo, ao tributar, retira parte da renda destinada ao consumo e outra parte destinada a poupança. A parte destinada ao consumo causa um efeito negativo sobre a renda. Entretanto, a parte retirada da poupança mais que compensa a perda do consumo. Isso só ocorre porque Keynes considera a poupança algo inútil. Se considerarmos que ela seria destinada a investimentos por parte do setor privado, então a renda da economia seria prejudicada. Os investimentos do setor privado seriam reduzidos.
- Portanto, o mito do multiplicador keynesiano é falacioso, pois não leva em consideração de que, para haver consumo, é necessário haver produção compatível. Não é o consumo que aumenta produção. É a maior produção que aumenta a capacidade de consumir.
- Portanto, caro leitor, sempre que alguém vier com essa “histórinha do multiplicador”, pergunte para si mesmo: “Como esse consumo foi pago? Da onde o consumidor conseguiu obter produção para poder realizar a troca?”.
* Lembre-se: O consumo de uma pessoa só é possível se ela tiver produzido ou pegado emprestado algo de alguém. Toda a demanda pressupõe a oferta de algum bem. Todo e qualquer consumo deve ser finaciado com alguma produção. Quanto maior a produção, maior o consumo.
Marcadores: Keynes, Lei de Say, Multiplicador



16 Comments:
Quem financia o investimento, não é o credito?
E da onde vêm o crédito?
O crédito é uma representação da poupança acumulada pelos indivíduos que é canalizado ao investimento através do sistema financeiro.
belo post stein...e é engracado como pessoal no inicio do curso fica falando em multiplicador(pq veem em intro a economia), mas isso pq nunca viram a contestacao, que abafa totalmente essa idéia (ou entao por nao querer fazer ciencia, sao religiosos, como diria o nosso professor de monetaria: só na economia usam livros como bíblia, seja do alemao barbudo ou do viadinho ingles...ou voce ai ja viu um fisico pegar os escritos de arquimedes e dizer que ali estao todas as verdades???)
A “DERROTA DA LEI DE SAY”
ELEMENTOS TEÓRICOS FUNDAMENTAIS
E ALGUMAS IMPLICAÇÕES METODOLÓGICAS
E DINÂMICAS*
http://www.scielo.br/pdf/rec/v9n2/v09n02a08.pdf
Gostaria da opinião dos senhores.
Esse texto não mostra nada mais do que a "crítica" da Teoria Geral feita a lei de say.
O texto já começa errado, pois comete o mesmo "erro" (cometido ou por ingnorância ou por estratégia) que Keynes cometeu em seu livro. A Lei de Say NÃO DIZ que "a oferta cria sua própria demanda". Say nunca disse isso em lugar nenhum do livro.
Portanto, qualquer pessoa que disser isso, certamente deve reler a obra de Say e dos clássicos, como Ricardo e Mill, que contribuiram para a formação da Lei de Say.
Como já foi dito no post, a Lei de Say afirma que existe uma necessidade lógica de que cada demandante seja necessariamente um ofertante. Isso não é a mesma coisa que dizer que a oferta gera demanda. É possível que alguns ofertantes errem suas previsões e ofertem algo que algumas pessoas não querem demandar. Entretanto, esses erros são corrigidos através do sistema de preços. Não existe uma falta de "demanda agregada". Apenas um excesso de oferta em setores particulares.
Quanto a afirmação da moeda como ativo líquido, bem, isso os clássicos também consideraram. Entrentanto, é notório que a moeda é muito mais um meio de troca do que qualquer outra coisa. É a função primordial de efetuar trocas que dá sentido as demais funções como, por exemplo, a "especulação".
Dito isso, é notório que a moeda ao ser primoridial mente um meio de troca, não é entesourada na intensidade que keynes afirma ser. Para Keynes TODA a poupança é entesourada. Isso obviamente é falso.
Como Ricardo disse, "nenhum homem produz, sem o propósito de consumir ou vender, e ele nunca vende, sem a intenção de comprar alguma outra commodity".
Como um professor meu diz, "poupar é uma merda". Eu só irei me abster de consumir se obter algum tipo de remuneração no futuro (o juro). Só é possível pagar juro se essa poupança for destinada a produção de alguma coisa útil que dará frutos no futuro. Se esta poupança não é emprestada a ninguém, como que eu recebo juros sobre ela?
Novamente: a Ley de Say não implica que SEMPRE haverá pleno emprego o tempo inteiro. Ela simplesmente argumenta que é impossível existir excesso de oferta agregada ou falta de demanda agregada.
O que ocorre são previsões equivocadas feitas pelos empresários. Ao observar o erro, o mercado se corrigi via ajuste de preços.
Belo texto!
Quem dera o multiplicador existisse! Bastaria sair às compras gastando loucamente que todos enriqueceriam...
é joel, uma pena a poupança nao ser inútil, como dizia João Mainardo, dai daria pra termos isso. E salve o multiplicador!!
Eu acho que o fascínio da teoria keynesiana vem da vontade das pessoas em "enganar" as leis do mercado para dirigir os rumos da economia (e o fascínio dos economistas vem de serem eles os encarregados de comandar esses processos). Só assim podemos compreender como pessoas passam 15 anos estudando economia para achar que, por exemplo, imprimindo papel está se gerando riqueza, quando só está se gerando papel.
Muito bom post, parabens.
Adolfo
"* Lembre-se: O consumo de uma pessoa só é possível se ela tiver produzido ou pegado emprestado algo de alguém. Toda a demanda pressupõe a oferta de algum bem. Todo e qualquer consumo deve ser finaciado com alguma produção. Quanto maior a produção, maior o consumo."
Não se esqueça que você tá falando só de demanda realizada. a oferta pode ser gerad a partir de demanda reprimida com oferta não ofertada até então. Entendeu?
E olhe que sou marxista e não acredito mais na eficácia de keynes mais. Já foi eficaz, mas já passou seu momento histórico de aliança umbilical com o fordismo e anti-capital-financeiro-dominante
Keynes não considera a poupança "algo ruim que não serve para nada". Ele considera que ela reduz a demanda agregada. Mas tal redução pode ser compensada por um aumento de mesma magnitude do Investimento. Então, para não haver demanda agregada insuficiente o investimento ex post tem que ser igual à poupança ex post.
Segundo os autores neoclássicos (keynes os chama de clássicos), tal equilíbrio ocorre devido ao mecanismo da taxa de juros. Keynes acredita que tal mecanismo cause um equilíbrio entre S e I, só que abaixo do nível de pleno emprego dos fatores.
Conclusão: Uma taxa de poupança elevada pode ter um efeito recessivo (depressivo) na economia no curto prazo. Mas Keynes não subestima os benefícios da poupança elevada no longo prazo.
Keynes é uma autor que estuda a questão do crescimento/recessão no curto prazo. Recomendo que veja a importância da poupança no longo prazo no modelo de Solow que é apresentado com maestria no livro Macroeconomia do professor Blanchard.
Calma aí.... Quem disse que se todos saírem gastando compulsivamente todos vão enriquecer??
A questão que Keynes levanta é a importância da demanda agregada na determinação do nível de renda, e não a sua primazia em tal determinação. Ele não tira a clássica importância da oferta em tal determinação. Só que ao invés dos autores neoclássicos ele não aceita que apenas a oferta agregada determine a renda. Da mesma forma que Marshall ilustrou na apresentação do seu esquema microeconômico, fazendo a analogia entre oferta e demanda e as lâminas de uma tesoura: não se pode dizer qual delas é mais importante ao cortar o papel, mas sim que as duas cortam-no simultaneamente. Assim também seria no nível macroeconômico.
Se uma economia está produzindo aquém de sua capacidade, então um aumento no consumo e nos gastos do governo vai levar a um aquecimento da economia. Mas se o país já está no nível de pleno emprego dos fatores, então todo gasto, investimento e consumo desmedido não levará ao aumento da produção mas sim ao surgimento da inflação.
Hahahaha
Nem dá pra comentar isso..
Recomendo ler Introdução à Economia do Mankiw.
O texto confunde renda do indivíduo com renda do país.
Isso é brincadeira?
O cara não consegue entender nem que é multiplicador da renda do país e vem querer criticar Keynes...
Isso está parecendo blog de humor..
Lição Importante em Economia: O "viadinho inglês" é o melhor economista de todos os tempos...
Ainda da tempo pra vc se salvar da ignorância...
lamentável. é por essas idéias que a crise esta assim.
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