Rabiscos Econômicos: O Dogmatismo Heterodoxo e risco que a Escola Austríaca corre.

10 Dezembro, 2007

O Dogmatismo Heterodoxo e risco que a Escola Austríaca corre.

O professor Shikida levantou novamente a questão sobre a Escola Austríaca e o repúdio que alguns austríacos fazem ao mainstream da economia. Antony Mueller afirmou o seguinte:

“(…)What is needed is a thorough transformation of how economics and management are praticed, taught and researched. What is needed is a change of perspective as it is provided by the Austrian school of economics.”

A idéia é a de que enquanto o mainstream da economia não adotar a metodologia e as idéias austríacas, as crises serão inevitáveis e recorrentes. É como se os austríacos tivessem encontrado a solução “para todos os problemas”.

Embora a Escola Austríaca seja, na minha visão, uma das melhores escolas de pensamento, ela ainda sim é heterodoxa. Como toda escola heterodoxa, ela comete o erro de querer negar totalmente o mainstream econômico. Isso sempre me incomodou profundamente. Assim como os “pterodoxos”, existem economistas austríacos que se julgam donos da verdade, como se todo o conhecimento de teoria econômica acumulado por séculos, passando pela Escolástica Espanhola, Adam Smith, David Ricardo, Jevons até Milton Friedman, Lucas e Barro, não significassem absolutamente nada.

O conhecimento científico sobre economia passou por um longo processo evolutivo, envolvendo erros e acertos levando a ciência até onde ela se encontra hoje. É dificil acreditar que os indivíduos tenham errado por todo esse tempo. Já fomos todos adeptos do valor-trabalho, em seguida acreditamos que poderíamos quantificar a utilidade dos indivíduos, a seguir “nos tornamos todos keynesianos”, graças a Deus percebemos que estávamos errados, e assim sucessivamente. A ciência evolui devagar, nem sempre acertando totalmente, mas também nem sempre errando totalmente.

Todo o sujeito que ignora a tradição e o conhecimento acumulado no passado acaba se tornando dogmático. Dogmatismo é uma característica presente em quase toda escola heterodoxa. Marxistas, Keynesianos e, infelizmente, alguns Austríacos acabam se tornando intolerantes e se fechando em pequenos grupos, cultuando seu herói, seja ele Marx, Keynes ou... Mises.

Eu acredito que grande parte da razão pela qual os austríacos foram deixados de lado foi o repúdio aos testes empíricos. É verdade que existem vários problemas com Econometria, Calibragem e a própria Economia Experimental, desenvolvida por Vernon Smith. Nesse caso, é necessário é buscar novos meios de realizar testes empíricos, aperfeiçoando as técnicas estatísticas e a coleta de dados. O que não se pode fazer é se fechar totalmente a qualquer teste, ficando a margem de todo o mainstream econômico.

Para finalizar, creio que na macroeconomia os austríacos tem muito a contribuir para o mainstream. Desde o final dos anos 70, inicio dos 80, a macroeconomia está cada vez mais buscando fundamentos microeconomicos para o comportamento macroeconomico. A idéia do trade-off entre trabalho e lazer, o problema da escolha do consumo ao longo do tempo são conceitos amigaveis para os austríacos que se tornaram o fundamento das teorias modernas de macro. Eu pretendo escrever mais sobre isso em breve....

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7 Comments:

Blogger Joel Pinheiro disse...

A consideração de que ninguém deva se fechar sobre sua teoria é sempre válida.

No entanto, aceitar assim de bandeja que a economia seja uma ciência empírica não é uma "abertura a argumentos contrários"; é a aceitação de que a metodologia austríaca é errada e a adoção da metodologia neoclássica como certa.

Não é por chatice que um austríaco não aceita testes empíricos. Há argumentos para isso; e nenhum dos argumentos se baseia na pouca precisão dos testes, ou no tipo de teste até hoje desenvolvido.

Ele vai direto na raiz do problema, na sua acepção mais universal. Não é uma crítica a esse ou aquele tipo de teste, mas à própria possibilidade de se adquirir conhecimento econômico sobre bases empíricas (como o termo é entendido hoje em dia).

Concordo que ninguém deva se fechar, e que contribuições positivas podem vir de todos os lugares (mesmo daqueles, como o keynesianismo, cuja contribuição é em larga medida negativa); mas isso não quer dizer que se deva aceitar algo de outras abordagens só para se "abrir".

12:51  
Blogger Paulo Vaz disse...

O problema parece ser esse, qualquer tipo de abertura deve ser bem analisada. Afinal, qualquer um de nós pode no futuro chegar a assumir cargos público nos quais nossa opnião será de fundamental importância. Portanto, não podemos nos dar ao luxo de aceitar qualquer abordagem só para se abrir como você disse. Afinal, a sociedade é que sofrerá as consequências de decisões mal tomadas.

Isso me lembra um antigo tópico desse blog sobre a importância do embasamento teórico para aqueles que se posicionam sobre problemas econômicos.

17:15  
Blogger Ramiro disse...

Eu sou um cara humilde. Não acho que sou o dono da verdade. Acho que sou o dono das hipóteses ainda não-refutadas.

10:17  
Blogger Thomas H. Kang disse...

Ramiro é um bom Popperiano pelo jeito.

Para um austríaco, adepto da praxeologia, é complicado realmente, como disse o Joel, começar a aplicar testes empíricos. O Ph escreveu algo a respeito de um austríaco "também-empirista". Mas não sei afinal se é possível vocês se abrirem dessa forma.

Quanto ao texto propriamente, tu pareces advogar uma história da ciência popperiana, em que conjecturas são refutadas e a ciência vai incrementando conhecimento pouco a pouco. Grandes rupturas, como a proposição de Kuhn, parecem apagadas nesse texto. A economia advogava valor-trabalho, adotou o marginalismo mantendo o liberalismo, o que foi abandonado com o Keynesianimo. Logo, o Keynesianismo foi abandonado... afinal, parece que, para a escola seguinte, sempre estivemos errados.

O que quero dizer é que, elementos de continuidade e ruptura estão sempre presentes na história da ciência (eu sei que os termos são da Conceição Tavares, mas não se preocupe, não sou cepalino). Mais do que evolução gradual ou revolução científica, sempre tem uma parte que aproveita a escola passada sem deixar de fazer mudanças grandes.

Em meio a isso tudo, é difícil dizer que, por ser mainstream, tal escola é mais certa. Se fosse assim, eu nem ouviria mais vocês austríacos gritando. Também não significa que o mainstream esteja necessariamente errado por ser reprodução da ideologia burguesa, etc, etc...

Deu pra entender?

22:35  
Blogger Guilherme Stein disse...

Acho que existe uma confusão acerca do método dos neoclássicos, austríacos e dos físicos.

Os físicos são empiricistas. Experimentam e dela criam uma teoria.

Os austríacos derivam através da lógica, baseado no pressuposto da ação racional, princípios e teorias.

Os neoclássicos derivam através da lógica, baseado no pressuposto da ação racional, princípios e teorias e depois testam essa teoria.

Muita gente acredita que o "mainstream" faz o que o pessoal das ciênciais naturais fazem. Isso é errado. Os economistas criam um modelo antes da experiência, os físicos criam o modelo depois de experimentar.

02:17  
Blogger Guilherme Stein disse...

Obviamente a evolução do conhecimento científico passa por grandes mudanças. Entretanto, ele segue uma continuidade. Nunca houve uma situação na economia em que todo o conhecimento passado fosse totalmente desprezado ou considerado errado. Nesse sentido, os heterodoxos falham, pois se fecham e negam o diálogo com o "mainstream".

Negar o diálogo é se considerar dono da verdade e, portanto, considerar tudo que o outro fez como algo errado.

02:21  
Blogger Thomas H. Kang disse...

Stein,

Concordo com teu último comentário. Mas convenhamos que já ortodoxos que tem essa mentalidade, embora sim, o mainstream em geral incorpore muita coisa que vem dos outros.

Sim, sempre há uma continuidade - e deve haver.

21:00  

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