Rabiscos Econômicos: Porque ninguém gosta dos austríacos?

05 Dezembro, 2007

Porque ninguém gosta dos austríacos?

Foi uma pergunta levantada pelo professor Shikida no De Gustibus que motivou este post. O professor Shikida perguntou o seguinte:

Se o mercado funciona, como dizem os economistas austríacos (os “heterodoxos” que acho mais consistentes), por que o modelo de Roger Garrison não está disseminado na literatura?

A idéia e a seguinte: os economistas austríacos argumentam que o mercado é capaz de decidir qual é o melhor em tudo. O consumidor é soberano e escolhe, através do ato de comprar ou de se abster de comprar, quem é a firma mais competente, qual é o produto de melhor qualidade ou qual é o trabalhador mais competente. No mercado de idéias isto também deveria ser válido, ou seja, das várias idéias que competem umas com as outras, o “consumidor” escolhe a que lhe fornece a melhor explicação sobre um determinado assunto. Essa idéia pode ser contestada, é claro, por novas idéias ou idéias velhas, mas colocadas de uma forma mais moderna e aperfeiçoada. Já sabemos que não existem respostas definitivas para quase nada no mundo.

Se o modelo de Roger Garrison sobre ciclo de negócios é o melhor, e segundo os economistas da escola austríaca ele é, porque o mercado, que tende sempre a ser muito sábio, não o elegeu como o modelo que melhor explica o fenônemo dos ciclos econômicos?

Assumindo que o modelo de Garrison seja realmente o mais sensato, atribuo a culpa dele não ter sido eleito o melhor pelo “mercado”, a dois personagens: a Escola Austríaca e os incentivos contidos na pesquisa em macroeconomia.

A Escola Austríaca é culpada pela baixa difusão do seu modelo no meio acadêmico principal por dois motivos, um motivo ideológico e outro metodológico. Primeiro, como toda a escola “heterodoxa”, os austríacos se orgulham de serem “outsiders”. Portanto, como todos os heterodoxos, praticamente cortam todo o diálogo com o “mainstream”. Odeiam o “mainstream” e por isso, embora, na minha opinião, tenham resultados, principalmente na microeconomia, bastante similares aos da economia principal, insistem em se isolar deste meio acadêmico. Nesse aspecto, são “Grouxos Marxistas”, ou seja, “nunca entrariam para um clube que os aceitassem como sócios”. É como se eles fizessem questão de serem diferentes. Nesse âmbito eu diria que a Escola Austríaca é, infelizmente, semelhante às demais escolas heterodoxas que resistem ideologicamente ao “mainstream”.

Evidentemente, nem todos os economistas austríacos são assim. Muitos deles desejam incorporar suas idéias e dialogar com o “mainstream”. É ai que entra questão do método. O método da economia austríaca é totalmente diferente do método da economia principal. Enquanto a última é busca o máximo de evidências empíricas através de métodos estatísticos altamente sofisticados, a primeira se fecha totalmente para a estatística. Mises argumenta que a econometria não pode fornecer nenhum insight econômico que não possa ser deduzido axiomaticamente através do pressuposto da “ação humana” racional. Nesse sentido, ele argumenta que a econometria é apenas “história econômica”, ou seja, é apenas um relato do comportamento de algumas variáveis representando agregados econômicos (PIB, nível de preços, consumo e investimentos agregados) que não significam muita coisa para o indivíduo econômico. Esta, junto com o repúdio a análise matemática de suas teorias, é, sem dúvida, a maior diferença entre os métodos austríacos e convencionais. Esse abismo é um dos responsáveis pela baixa difusão das idéias austríacas na academia.

O segundo culpado pelo baixo prestígio da teoria austríaca do ciclo de negócios consiste nos incentivos por trás das pesquisas macroeconômicas. Os Bancos Centrais e Governos em geral tem baixo incentivo para financiar grupos de pesquisa que são contra a existência do Banco Central e contra a intervenção do governo na economia. A idéia de que o presidente do FED deve ser uma espécie “engenheiro” que regula a economia é algo muito forte. Justamente por isso que Novos Keynesianos e suas curvas de Philips recebem muita atenção. É muito atraente a noção de que burocratas podem, através de instrumentos fiscais e monetários, regular a economia, colocando-a em uma trajetória de crescimento e estabilidade. Esse meu argumento segue a linha da Economia Política, ou seja, pouco interessa a economistas ligados ao governo endorsar uma teoria que irá desempregá-los. Ou seja, um grande participante no mercado de idéias, o Governo, rejeita a teoria austríaca por motivos políticos. Evidentemente este argumento não se sustenta no longo prazo, pois, como diz Thomas Paine, “o tempo converte mais que a razão”.

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3 Comments:

Blogger Thomas H. Kang disse...

Poxa, Stein!

Já tava até irritado contigo! Finalmente um post não panfletário! O velho Stein, embora sempre com posições austríacas, costumava escrever sobre questões interessantes. Nos últimos tempos, eu só via guerrinhas ideológicas nos comentários. O pessoal gostava, mas eu enjoei disso, hehe.

OK, pode fazer posts panfletários, mas faça mais posts como esse.

17:05  
Blogger Joel Pinheiro disse...

Outro ponto a ser levado em conta é que o processo de mercado nem sempre leva à escolha dos melhores.

A ação humana depende tanto das preferências dos homens quanto de suas crenças sobre a realidade.

É como Menger dizia: amuletos e cosméticos não são capazes de satisfazer as necessidades para quais os humanos os usam.
No entanto, enquanto durar a crença humana de que eles funcionam, continuarão a ter valor.

As teorias erradas podem sim ser bem-sucedidas, mesmo com liberdade (embora essa dificulte o sucesso do erro, dado que expõe todas elas ao duro e constante teste da realidade).

Há astrólogos e shamans de sucesso.

Os austríacos não afirmam que a economia de mercado exista no que se pode chamar de "eficiência". Não se está no equilíbrio, e as pessoas não estão satisfazendo seus desejos da melhor forma possível.

Eles mostram que, com o livre mercado, caminha-se de forma mais certa para essa eficiência, que no campo das idéias significa as idéias corretas (partindo do pressuposto crível que todas as pessoas queiram saber a verdade, e não estar enganadas). Mas isso não elimina a possibilidade de erros, e inclusive a possibilidade dos erros ganharem popularidade.

E você faz um bom trabalho em mostrar, inclusive, que as teorias econômicas não têm competido dentro do que se pode chamar de um livre mercado, mas que há incentivos escusos por detrás dessa história. Não só no que diz respeito ao financiamento direto, diria eu, mas também nas perspectivas de se conseguir emprego nos órgãos do governo e banco central.

17:31  
Blogger Samuel Ramos disse...

É evidente que os bancos centrais não vêem nenhuma motivação para adotar a escola austríaca, eles realmente acreditam numa economia 'planejada', tanto é que adotam as teorias do Keynes sem problema algum. São elas que permitem o cultivo dos 'interésses' de alguns que sabemos quem são.

Alguns acham que as atitudes dos bc´s são para 'regular' o free-market, isso é um absurdo. O sistema economico é guiado pelo mesmo preceito do comunismo ou do estato totalitário: central planning. Óbvio que não vai funcionar, e óbvio que a culpa pelas distorções acaba caindo no 'free-market'.

Veja o problema atual do mercado imobiliário americano. Greenspan afrouxou a política monetária, levou os juros a 1%, alimentou a maior bolha da história e o que eles estão propondo no momento para consertar a situação é mais regulação.

12:41  

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